Sábado, Junho 09, 2007

sombra

Adormeceu na manhã uma sombra, o Sol acordava de ressaca e vinha roxo de vinho com olheiras de nevoeiro e escuridão de fumo, no centro uma lareira para mãos estendidas presas a correntes, o preso não conseguia sonhar e sufocava, o fumo a entrar-lhe na imaginação, começou a ver tudo escuro, ajoelhou antes de desmaiar!

Domingo, Janeiro 09, 2005

grilo

Um grilo preto, feio, escuro, terroso, roça as asas e não canta, in-comoda. Hoje não me deixou distrair com a tristeza da jovem que se repete, dizendo estar morta. Coisa que não duvido tenha acontecido enquanto adormeci e mais nada faço senão sonhar com ela para ver se estou acordado e tudo não passa dum pesadelo passado num blog gótico.

Sábado, Janeiro 08, 2005

horas

Quando o relógio da torre começou a dar horas estranhei e quis saber qual era o dia, a semana, o mês, o ano, o século, o milénio, e não havia nada disto, faltava inventar o tempo fora de horas. Só o relógio dava horas vazias, ocas, doentias, irregulares, espaçadas, até cantar o galo de madrugada. Isto aconteceu durante a noite, pareceu acabar durante o dia, até à noite do dia seguinte.

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005

outra

Outra igual à de ontem mas mais depravada: antes de ser esmagada, a caveira, era lixada e polida até poder ser partida por um sopro. Demorei tanto tempo que, não conseguindo evitar um suspiro, despedacei a caveira com o sopro. Sem conseguir chegar ao fim, cujo sentido estava a ser possível seguir, pareceu ir dar ao centro do labirinto.

Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

órbita

Uma destas histórias imaginei de ouvido, vê-la através duma órbita vazia de caveira usada em práticas de magia. Era lavada em sangue, regada de azeite, para acabar sendo despedaçada por um maço de ferro deixado cair do alto da cúpula duma sinagoga por um demente gá-gá com muito boa pontaria, conseguida em anos de prática. Até não precisar de respirar para continuar vivo.

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

empenho

O isolamento faz o ruído de unhas tentando escrever na ardósia dum quadro negro, o som dum giz riscando a branco a invisibilidade impalpável das sensações gastas pelas unhas gastas que são um giz gasto, a chiar na lousa ideias, cujo pensar não ouso acompanhar. Acompanho, movido pela vertigem, o desempenho musical deste empenho destrutivo do isolamento, tentando fazer ao silêncio o mesmo que a coruja ao rato.

Terça-feira, Janeiro 04, 2005

caótica

A jovem é usada, violada, maltratada, tudo e nada. Na maior parte do dia delira, canta, ri e chora. Tenho-a ouvido repetir a sua história vezes sem conta, sempre de maneira diferente, até chegar à exaustão dum sentido ou da sua possibilidade, explorando até aos confins do razoável a imaginação, enveredando por uma ficção caótica onde descreve medos como se fossem seres vivos ou outras pessoas.